terça-feira, 27 de setembro de 2011

"O futebol para além das quatro linhas"

         Procure imaginar a situação: você está sentado  na  platéia  para  assistir  a  uma  apresentação em sua escola. Certamente não há a preocupação, de sua parte, sobre o que possa estar ocorrendo por trás das cortinas fechadas, prontas para serem abertas e revelarem  as mais  diversas  possibilidades  e sensações. Até porque você foi ao espetáculo na condição de espectador, e como tal, seu interesse estava nas sensações proporcionadas, sejam elas de satisfação, alegria, tristeza,  indignação.  E  se  o  futebol  fosse esta apresentação e você tivesse a oportunidade de olhar por trás das cortinas, o que lhe chamaria a atenção? O que enxergaria? Com certeza, coisas que o deixariam intrigado, curioso, ou até decepcionado.
        “Os jogadores atuam, com pernas, numa representação destinada a um público de milhares ou milhões de fervorosos que assistem, das arquibancadas ou de suas casas, com o coração nas mãos. Quem escreve a peça? O técnico? A obra zomba o autor. Seu desenrolar segue o rumo do humor e da habilidade dos atores e, no final depende da sorte, que sopra como vento para onde quiser. Por isso o desenlace é sempre um mistério, para os espectadores e também para os protagonistas, salvo nos casos de suborno ou de alguma outra fatalidade do destino. Quantos teatros existem no grande teatro do futebol? Quantos cenários cabem no retângulo de grama verde? Nem todos os jogadores atuam com as pernas. Há atores magistrais.” (Eduardo Galeano, O teatro, 2004).
    O que poderemos descobrir se olharmos por trás da cortina de um espetáculo de futebol? O aluno cauteloso ao olhar diria: o futebol é um jogo, um esporte e não possui cortinas para olhar-se por trás. Outro aluno, mais audacioso, poderia ainda responder: eu sei o que acontece por trás, até porque, eu vivo no “país do futebol”, nasci com esta manifestação corporal impregnada em mim. E você, o que responderia?
        O futebol alcança importância gigantesca em nosso país, a ponto de se afirmar ser este o país do futebol. Por isso, você está convidado a espiar, através da cortina, e descobrir os ensaios e ajustes desta apresentação, bem como, aprofundar seus conhecimentos sobre o que pode vir a ser o futebol, para além das quatro linhas que circunscrevem o campo de jogo.  

                    Fecharam-se as cortinas! Vamos “espiar”?

As sensações em assistir a um jogo de futebol são as mais variadas possíveis:  raiva, apreensão, sofrimento, alegria. Tudo depende do desencadeamento dos fatos ao longo  da  partida,  depende  do  desempenho de seu time, depende da perspectiva com que se assiste a um jogo. Para alguns, a derrota de seu  time é motivo de  insatisfação,  brigas,  verdadeiras  guerras. Outras pessoas, ao assistirem ao  jogo do  time do coração,  saem felizes, respeitam os torcedores adversários, sentem satisfação independente  do  que  possa  vir acontecer ao longo da disputa.
        Um  jogo de  futebol pode  reservar  lances  mágicos,  seguidos de encantamento, próprios do futebol. Pelé, Garrincha, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho,  todos  jogadores espetaculares, que saíram da miséria, e talvez da criminalidade, para ganharem o mundo, com um futebol de encher nossos olhos, e conquistarem milhões de fãs pelos clubes que passaram.
       “Há um jogo que se passa no campo, jogado pelos jogadores como atividade profissional e esportiva. Há um outro jogo que se passa na vida real, jogado pela população brasileira, na sua constante busca de mudança para seu destino. E um terceiro jogo jogado no “outro mundo”, onde entidades são chamadas para influenciar no evento e, assim fazendo, promover transformações nas diferentes posições sociais envolvidas no evento esportivo. Tudo isso revela como uma dada instituição, no caso o Football Association, inventado pelos ingleses, pode ser diferencialmente apropriada.” (DAMATTA 1982, p.107).
Bem, mas você deve estar cansado de saber que existem brigas, que o futebol é um espetáculo muito raro aos nossos olhos, que existem jogadores muito bem pagos e que saíram da mais completa miséria. O que pretendemos aqui é  fazê-lo pensar um pouco  sobre  tudo que acabamos de falar, de uma forma diferente daquela que está acostumado a ver e a ouvir. Convidamos você a assistir ao espetáculo do futebol atrás das cortinas, a espiar algumas supostas verdades e a desconstruir muitas outras, oportunizando uma viagem aos camarotes do mundo da bola.
        Iniciamos apresentando um pouco do que alguns estudiosos  têm escrito e pensado sobre este esporte,  jogo, espetáculo; para discutirmos onde se passa o jogo – na vida ou no campo – e como nos são retransmitidas estas disputas. 

Futebol, ópio do povo: A ideologia das massas

    “Esporte é Saúde”, “Esporte é Energia”, Esporte é Integração Nacional”. Tudo verdade e tudo mentira. (...) Claro que o esporte ajuda a integração nacional, mas a atenção demasiada aos pés do jogador e do couro da vaca dá desintegração nacional, pois o homem se aposenta de ser consciente e livre (...)”. (NADAL, 1978).
        O autor da citação acima está falando de que tipo de consciência? Será que da consciência social, aquela que diferencia o homem de um animal? O que significa ter consciência? Como é formada nossa consciência?
É a partir desta última pergunta que iniciaremos nossa discussão sobre o futebol como ópio do povo. Ópio é um analgésico muito potente, e faz nosso cérebro funcionar mais devagar. Disto é possível supor o porquê da expressão que relaciona o futebol a uma espécie de contaminação da consciência crítica do ser humano.
        A consciência é formada a partir de inúmeras questões de ordem política, econômica e ideológica, que assumem importância em determinados períodos históricos na conformação ou efervescência da população. A  ideologia,  conceito do qual  tanto ouvimos  falar,  tem, na maioria das vezes, seu real significado pouco discutido. Você já deve ter ouvido falar que cada um tem uma ideologia, ou que devemos ter nossas próprias ideologias. Será que ideologia é, então, a mesma coisa que ideais a serem alcançados por cada um de nós?
    Karl Marx (1818-1883), importante pensador na história da humanidade, conceituou ideologia a partir da dinâmica da luta de classes. Ou  seja, para ele, a ideologia está colocada na luta entre aqueles que dominam e aqueles que são dominados. Veja um trecho que Marx escreveu sobre ideologia:
        “Com efeito, cada  nova classe que toma o lugar da que dominava antes dela é obrigada, para alcançar os fins a que se propõe, a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade, isto é, para expressar isso mesmo em termos ideais: é obrigada a emprestar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como sendo as únicas racionais, as únicas universalmente válidas”.  (MARX, 1987, p.74).
Assim, os dominantes apresentam suas idéias como únicas válidas e verdadeiras e perseguem, excluem ou exterminam aqueles que as contestam. A ditadura militar vivida pelo Brasil, entre os anos 60 e 80 do século XX, é um bom exemplo disso. Você já ouviu falar das torturas aplicadas àqueles que não “seguiam a ordem” estabelecida, ou contestavam o governo? Do exílio de autoridades e pessoas comuns que fugiam do país para não serem mortas, permitindo que o governo autoritário mantivesse a sua “ordem”? Enifm, nossa história está repleta de acontecimentos em que a ideologia das classes dominantes era imposta como doutrina, impossível de ser contestada.
        Mas como a ideologia pode ser transmitida à população? Por meio de vários canais, tais como: a mídia televisiva, os jornais, revistas, discursos, ou até mesmo as leis de censura próprias dos governos autoritários, como foi o caso do Brasil no período do regime militar.
        Os defensores do futebol, como ópio do povo, entendiam este esporte como uma das possibilidades de veiculação ideológica do pensamento da classe dominante. 
    Na década de 70, para neutralizar a oposição ao regime, o governo fez uso de vários instrumentos de coerção. Da censura aos meios de comunicação, às manifestações artísticas, às prisões, torturas, assassinatos, cassação de mandatos, banimento do país e aposentadorias forçadas, espalhou-se o medo e a violência. Os setores organizados da sociedade passaram a viver sob um clima de terrorismo, principalmente após o fechamento do Congresso Nacional, em 1966.
        Para amenizar essas crises, o governo do presidente Médici (1969-1974)  lançou mão do  futebol como possibilidade de desviar a atenção da população dos conflitos políticos da época. O objetivo era que, ao invés das pessoas saírem às ruas para participar de manifestações políticas, ficariam em suas casas torcendo pela seleção brasileira numa “corrente pra frente”, como diz a música de Miguel Gustavo, “Pra frente Brasil”. O governo militar utilizou-se da vitória da seleção, no mundial de 1970, para desviar a atenção da crise econômica, dos problemas  sociais e políticos e, principalmente, das atitudes autoritárias relacionadas  às  torturas,  perseguições  e mortes,  freqüentes  naquele período triste de nossa história.
Mais recentemente, em 2004, a visita do futebol brasileiro ao Haiti  foi o evento que voltou a vincular,  ostensivamente,  o  futebol  à  função  de “ópio do povo”. Muito se falou na mídia a respeito desta visita. Você se lembra das notícias que circularam nesta época?
        Procurando realizar nosso exercício, aquele de “espiar” o que  estaria  escondido  atrás das  cortinas deste episódio, acompanhemos uma reportagem apresentada ao jornal Folha de São Paulo, realizada em  função da visita da  seleção brasileira ao Haiti.

Futebol não afasta pavor do Haiti

Escrito por Marcos Guterman


        Ronaldo não é Henri Cristophe, mas teve seus momentos de rei do Haiti. Em “O Dia em que o Brasil Esteve Aqui”, o craque aparece em uma dimensão impressionante mesmo para um espectador brasileiro, orgulhoso de seu “país do futebol”. Mas o filme, feito para registrar os efeitos da histórica passagem da seleção de futebol do Brasil pelo Haiti, em agosto de 2004, na verdade pode ser visto como um incômodo lembrete de como o país antilhano continua a ser um espectro a rondar o horizonte brasileiro.
        Há pouco mais de 200 anos, o Haiti tornava-se a primeira nação negra independente das Américas. A revolução, cuja violência deixou marcas históricas, sacudiu o imaginário da elite brasileira da época, temerosa que o 1,5 milhão de escravos do país se inspirasse nos haitianos. “Haitianismo” virou nome de crime e pesadelo no Brasil. Os dois séculos de lá até aqui não parecem ter mudado essencialmente essa relação.
    No documentário, a seleção brasileira aparece como representante do que há de mais significativo da cultura nacional, coisa capaz de enlouquecer os países por onde passa, sobretudo os mais pobres. Na véspera do amistoso contra o Haiti, soldados brasileiros distribuíram nas ruas camisetas amarelas, disputadas como se  fossem sacos de comida. Um  jornalista haitiano sugere que esse é o autêntico “soft power”, isto é, o poder de conquistar corações e mentes por meios persuasivos.
        Mas os astros dessa poderosa trupe são endinheirados exilados na fria Europa, e seu traço negro é só uma pálida lembrança dos 400 anos de escravidão no Brasil. Em cima de carros blindados da ONU, desfilaram pelas ruas de Porto Príncipe como imperadores em meio a uma inacreditável multidão de miseráveis súditos que se empilharam para ter o privilégio de ver seus deuses por uma fração de segundo, se tanto.
        A seleção, símbolo de um Brasil cuja identidade foi construída no passado recente em cima da lenda da democracia racial, manteve um prudente distanciamento dessa massa negra informe. Sob forte proteção, o time chegou, entrou em campo, goleou e foi embora, sem maior envolvimento, o que causou uma mal disfarçada frustração entre os haitianos.
O comando militar brasileiro alegou que a visita da seleção foi rápida para evitar tumultos que poderiam converter-se em violência. Mas, no limite, talvez tenha sido medo de contaminação, o velho pavor da elite brasileira.
        Ao final do documentário, o que se impõe não é a força do futebol nem o acerto da iniciativa brasileira, e sim uma incômoda pergunta: quanto falta para sermos o Haiti?
        Tanto em 1970 como em 2004, o  futebol  funcionou como válvula de escape para os problemas sociais, ora para o povo brasileiro, de maneira direta; ora indiretamente para o povo haitiano. O interesse do governo Médici e do governo haitiano, nestes dois eventos, foi distrair a população, “aliviar” conseqüências da instabilidade política do país em questão com o uso do papel simbólico que o futebol assumiu historicamente.

Futebol: a formação da identidade nacional

    A  nossa  discussão  a  respeito  do  futebol  apresentará,  também,  o pensamento de outro autor, para quem esse esporte é manifestação da cultura do povo e constituidor da identidade da nação brasileira.
        Você deve pensar: como um esporte, ou  jogo, pode se constituir  num objeto que identifica uma nação? Identidade estranha quando se pensa em um esporte que veio de fora do país e hoje anunciamos aos quatro cantos, como se fosse nossa invenção. Segundo o antropólogo Roberto DaMatta, “ ... sabemos que o futebol brasileiro se distingue do europeu pela sua improvisação e individualidade dos jogadores que têm, caracteristicamente, um alto controle da bola. Deste modo, o futebol é, na sociedade brasileira, uma fonte de individualização e possibilidades de expressão individual, muito mais do que um instrumento de coletivização ao nível pessoal ou das massas. Realmente, é pelo futebol praticado nas grandes cidades brasileiras, em clubes que nada têm de recipientes de ideologias sociais, que o povo brasileiro pode se sentir individualizado e personalizado. Do mesmo modo, e pela mesma lógica, é dentro de um time de futebol que um membro dessa massa anônima e desconhecida pode tornar-se uma estrela e assim ganhar o centro das atenções como pessoa, como uma personalidade singular, insubstituível e capaz de despertar atenções.” (DAMATTA, 1982, p. 27).
    É necessário pensar o  futebol como algo ainda mais complexo e poderoso do que um instrumento de ideologia das massas e do mercado. Propomos pensá-lo como possibilidade de desenvolver formas solidárias e cooperativas de organização da sociedade. Neste sentido, o futebol seria um esporte, uma prática corporal capaz de fazer refletir sobre diferentes maneiras de organização política e social.
        Nesta perspectiva, o futebol organizado nas ruas, pelas comunidades locais, pode se tornar a vitrine de nossa identidade nacional. Esses times que se constituem nas relações sociais democráticas e solidárias, que objetivam a diversão e a integração da comunidade, surgem como exemplos de possíveis organizações políticas alternativas.
        O futebol de várzea, de pelada, aquele que você organiza na sua comunidade, na sua rua, cumpre um papel importante na caminhada rumo à superação de dificuldades e, principalmente, da personalização singular do brasileiro como povo característico e criador de uma cultura própria.
       Quando nos colocamos como atores deste espetáculo, muitos problemas podem surgir, principalmente, se você analisar qual o grande público que participa dos jogos organizados nas ruas. Os homens ainda representam a maioria dos praticantes de futebol, embora isso venha mudando com uma freqüência cada vez maior. As mulheres têm conquistado seus espaços, o que pode demonstrar o que dissemos anteriormente, sobre a  importância do  futebol na discussão de problemas sociais. Nunca é demais lembrá-lo que o futebol deve ser praticado por toda a turma, e isso inclui todos e todas, meninos e meninas, sem distinção. 
        Vamos tentar organizar algumas atividades que propiciem a vivência do futebol praticado na rua, no qual você é o protagonista e, assim sendo,  responsável por discutir e  solucionar os problemas que possam surgir.

Futebol: “Um negócio da China”
    Agora que você conhece um pouco mais sobre as possibilidades de compreensão do futebol, vamos problematizar algumas questões, principalmente no que se refere à importância desta prática corporal, no cenário social e esportivo, bem como no desenvolvimento dos negócios de maneira em geral.
        O cenário esportivo e dos negócios andam juntos, constituem o cenário nacional? Acompanhe-nos em mais esta “espiadinha”!
        O futebol, tanto como prática de lazer quanto prática esportiva de alto rendimento, tem sofrido um processo de mercadorização em nossa sociedade.
        A venda dos direitos de imagem dos jogadores ou o uso  e  venda das marcas de patrocinadores, bem como a venda dos direitos de transmissões de jogos pela TV e, até mesmo, a venda de jogadores em altas transações formam um complexo e rendoso mercado (AZEVEDO e REBELO, 2001).
        Você sabe o que signiica mercado? Deve ter ouvido, em telejornais, expressões como: “o mercado está nervoso”, ou ainda, “o mercado de ações caiu”. A palavra mercadoria é derivada de mercado. O que ela signiica? Se, vivemos numa sociedade produtora de mercadoria, o que o futebol tem a ver com essas terminologias?

Vivemos numa sociedade que visa o lucro

     Digamos que você está em um passeio e, porventura, lhe dá fome, você vai até sua mala e percebe que esqueceu o lanche que havia preparado para comer. Mas não pode esperar até chegar em casa, pois está faminto e sai à procura de algum lugar que tenha algo para satisfazer sua fome. Chegando neste local, escolhe o alimento que deseja e se dirige ao caixa. Neste momento, é preciso pagar pela mercadoria que irá consumir. Mesmo que você não tenha esquecido o lanche que havia preparado, a procedência do mesmo pode ser da vendinha perto de sua casa e, portanto, também foi comprado. Ainda em nosso exercício de imaginação, agora você quer comprar uma bola, um rádio, ou algo que o agrade, que o distraia em momentos de lazer.
        Pois bem, aqui gostaríamos de dialogar com você sobre nossa sociedade, a sociedade capitalista, e como as mercadorias assumem papel central na produção de  toda a riqueza existente. No  futebol não é diferente. Como esporte espetáculo, suas mercadorias são vendidas aos torcedores e, entre elas, o jogador é uma mercadoria que pode estar à venda por um determinado preço.
        A riqueza de nossa sociedade baseia-se na acumulação de capital e dos lucros obtidos pela venda das mercadorias – feitas pelas mãos dos trabalhadores.
    Estas mercadorias são criadas para suprirem as necessidades humanas, sejam necessidades básicas ou necessidades criadas culturalmente. A mercadoria possui dois valores: o de uso e o de troca. O valor de uso diz respeito a sua utilidade, ou seja, a partir da necessidade é que se produz determinada mercadoria. Digamos que você necessita de roupa, então o produto “roupa” é criado para atender a sua necessidade, para que não passe frio em dias gelados, para que possa vestir roupas leves em dias quentes. O valor de troca da mercadoria serve para cumprir a necessidade da sociedade capitalista de acumular riqueza, aumentando o poço das desigualdades sociais entre ricos e pobres, grandes e pequenos consumidores. Essas desigualdades assolam, inclusive, o meio futebolístico.
        Assim como na sociedade, no futebol as desigualdades são enormes. Há jogadores cujo salário é superior a 5 milhões de reais por mês, como é o caso de Ronaldinho Gaúcho, enquanto outros ganham o salário mínimo em pequenos times sem nenhuma expressão, nem mesmo local ou regional.
        Os miseráveis do futebol também engordam as estatísticas do mundo da bola, as desigualdades e a injustiça são generalizadas, tanto no futebol, quanto na sociedade. Em reportagem que retrata estas desigualdades sociais no mundo do futebol, bem como o processo transformação do futebol em mercadoria, o jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria em 29 de fevereiro de 2000.


Com tanta riqueza por aí cadê sua fração?

Escrito por Sérgio Rangel

         Enquanto a parcela que ganha até dois salários mínimos cresce, o grupo composto pelos milionários do esporte vem diminuindo a cada temporada.
        Ao mesmo tempo em que o futebol brasileiro recebe investimentos nunca antes vistos, com os principais clubes firmando parcerias com multinacionais milionárias, os jogadores do país estão cada vez
mais pobres.
Segundo documentos oficiais do Departamento de Registro e Transferência da CBF  (Confederação Brasileira de Futebol) obtidos pela Folha, os ‘’boleiros ricos’’ integram uma parcela cada vez menor
no futebol brasileiro.
        De acordo com o levantamento, apenas 3,7% dos jogadores profissionais relacionados na entidade receberam mais de 20 salários mínimos no ano passado. Ou seja, 765 dos 20.496 jogadores registrados na CBF ganharam mais de R$ 2.720 mensais em 1999.
        Em 1998, a porcentagem de jogadores que integravam a elite do futebol nacional era de 4,3 %.
       Analisando as estatísticas dos últimos quatro anos, descobre-se que, enquanto o grupo que ganha até dois salários mínimos mostra uma tendência de crescimento, a parcela daqueles que recebem de duas a mais de 20 vezes esse valor apresenta inclinação contrária
        Em 1996, 81% dos proissionais do país recebiam até dois salários mínimos, número que pulou para 84,8% no ano passado (crescimento de 4,7%).
        Ocorre que a categoria dos miseráveis do futebol nacional foi engordada em 20% por atletas que, em 1996, estavam no grupo dos que ganhavam mais de dois salários mínimos (naquele ano, eles eram 19%, ao passo que hoje representam 14,7%).
        O fenômeno contrasta com a injeção de dinheiro observada recentemente no futebol do país, especialmente no ano passado.
        Em 1999, o Flamengo firmou contrato com a ISL pelo qual receberá cerca de R$ 145 milhões em 15 anos (a maior parte para o futebol), enquanto o Corinthians fechou acordo com o HMTF recebendo aproximadamente R$ 55 milhões por dez anos. Cruzeiro, Grêmio, Santos e Atlético-MG também acertaram recentemente parcerias milionárias com multinacionais.
        A CBF fechou, em 1996, contrato com a Nike para receber US$ 160 milhões (cerca de R$ 285 milhões) em dez anos.
        O levantamento da pirâmide salarial do futebol brasileiro é feito anualmente pela CBF, com base na palavra dos clubes. Todos os contratos são registrados, obrigatoriamente, na entidade.
        Mas a estatística tem distorções provocadas por clubes que não declaram o valor verdadeiro dos vencimentos. Muitos dirigentes obrigam os jogadores a assinar contratos no valor de um salário mínimo, mas pagam por fora até R$ 1.000 – o conhecido “caixa dois” (contabilidade paralela para recolher menos imposto).
        Mas como isso também ocorria em anos anteriores, os dados da CBF evidenciam o empobrecimento dos jogadores e voltam a exibir o enorme fosso que separa a minoria rica da maioria pobre.

Futebol brasileiro: Celeiro de craques,  ou mão-de-obra barata?

        Ao sul do mundo, este é o itinerário do jogador com boas pernas e boa sorte: de seu povoado passa para uma cidade do interior; da cidade do interior passa a um time pequeno da capital do país; na capital, o time pequeno não tem outra solução senão vendê-lo a um time grande; o time grande, asfixiado pelas dívidas, vende-o a um outro time maior de um país maior; e finalmente o jogador coroa sua carreira na Europa. Nessa corrente, os clubes, os donos do passe e os intermediários ficam com a parte do leão. E cada elo confirma e perpetua a desigualdade entre as partes, do desamparo dos times de bairro nos países pobres até a onipotência das sociedades anônimas que administram na Europa o negócio do futebol em nível mais alto. (GALEANO, 2004, p. 20).
      Quem nunca viu seu time vender aquele jogador que era destaque? Quem nunca ficou enfurecido por esta venda acontecer bem no meio  do campeonato?
       O jogador é um trabalhador como outro qualquer e, como tal, vende sua força de trabalho em troca de salário. O clube, como um ótimo capitalista, vê nesta mercadoria a oportunidade de obter lucro com a possível venda para outra equipe. Assim, está armada a cena para mais uma “espiada”, a venda de jogadores, (mercadoria) que atuam no Brasil, para clubes internacionais.
       O jogador, tratado como mercadoria por seu clube, vê, nesta transferência, a oportunidade de “mudar sua vida”, ganhar um ótimo salário e visibilidade mundial.
         O preço destes jogadores-mercadorias brasileiros é baixo em relação aos do mercado europeu, por uma série de fatores. Um deles é, sem dúvida, a péssima administração que cerca o esporte. O outro é a dificuldade financeira atravessada pelos clubes brasileiros. A crise econômica, que assolou o Brasil, causa impacto, também, nas possibilidades econômicas dos clubes. Estes não têm muitas escolhas, a não ser vender seu jogador a preços estipulados pelos clubes interessados.
        Outro provável motivo, que pode  ser  atribuído  ao barateamento dos  jogadores  transferidos ao mercado  internacional, diz  respeito ao valor agregado à suposta profissionalização internacional.
Um exemplo pode ser a transferência do jogador Kaká, atuando na época pelo São Paulo Futebol Clube, para o clube italiano Milan. Ao transferir-se para a Itália, Kaká tratou logo de “ajustar” sua imagem, e vendê-la junto com seu produto. O futebol europeu, através das grandes parcerias entre empresas interessadas em mostrar sua marca no cenário mundial, tem como forma de trabalho a vinculação de seus jogadores  à  imagem  de  uma  profissionalização  que  rende  aos  clubes milhões de dólares, e agrega ao valor do jogador quantias bem maiores que as pagas na compra de um jogador daqui do Brasil.
        Nossos clubes não conseguem manter contratos milionários com as empresas mais ricas do mundo por um motivo muito claro, nossa população é pobre, temos milhões de problemas financeiros e, principalmente, ninguém confiaria neste mercado, levando em conta o jogo capitalista. As relações de mercado têm forçado os clubes brasileiros a se enquadrarem na  lógica competitiva, da venda de mercadorias, assim como as demais estruturas da sociedade. Ficamos nós, torcedores (espectadores), “a ver navios”, com as mãos atadas pelo chamado mundo da bola, cada vez mais profissionalizado.         Finalizada  nossa  caminhada  pelos  bastidores  do  futebol, muitas questões ainda ficaram para “espiarmos”. Questões que não caberiam neste texto, ficando como tarefa a serem pensadas, posteriormente relacionando-as com as características da região onde você mora e, melhor que ninguém, saberá discuti-las e problematizá-las “dentro” e “fora” das quatro linhas.

        Responda as seguintes questões:

1. O que você compreende quando o autor do texto nos convida a “olhar por trás” das cortinas?

2. Descreva algumas das sensações que uma pessoa pode sentir assistindo a um jogo de futebol.

3. O que o autor do texto quis dizer com a expressão “futebol ópio do povo”?

4. O que você compreende por ideologia?

5. Como as ideologias são transmitidas para a população?

6. Na década de 70, para neutralizar a oposição ao regime, o governo fez uso de vários instrumentos de coerção. Cite-os.

7. O que fez, o governo do presidente Médici (1969-1974) para amenizar as crises existentes neste período?

8. Tanto na década de 70 no Brasil, quanto no Haiti em 2004, ambos os governo tiveram o mesmo interesse, explique.

9. De que forma o futebol pode influenciar na resolução de problemas sociais?


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